quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Os nossos vizinhos da Rocinha e Vidigal

Foi anunciado, no passado fim de semana, que o BOPE (polícia de operações especiais cá do sítio) iria entrar nas favelas da Rocinha e do Vidigal no dia 13 de Novembro. E quando digo anunciado refiro-me a informações nos jornais e nos telejornais.
Como recém chegada achei muito estranho este anúncio - então dizem aos bandidos quando é que vão entrar na favela? E eles não fogem? As respostas que fui obtendo a estas perguntas eram todas elas no mesmo sentido: têm que avisar para evitar morte de civis e dar tempo às pessoas para sairem, com as suas famílias, das favelas; e sim, é provavel que os bandidos fujam antes de eles entrarem. Ambas as respostas me fazem sentido, especialmente a primeira se se atender ao lado humano de poupar vidas a inocentes.
Ontem o Pedro foi para São Paulo e por isso eu fiquei com o carro. A meio da tarde fui deixar o João à Gávea a casa dos Solla e depois fui buscar o Mi à escola. Para diminuir o meu tempo de chauffer, e evitar andar a entrar e a sair, fui directa da escola para a Gávea. Deixem-me que acrescente que no cimo da Gávea é uma das entradas da Rocinha. Estave eu e a Patrícia com a bébé em animada cavaqueira na varanda, a aproveitar um ventinho de fim de tarde que sabia muito bem e com os 4 miúdos a brincar em silêncio, quando começamos a ouvir uns helicópteros. Achei estranho tantos helicópteros. Mas nem dei importância, pois é "bicho" que existe em grande quantidade nesta terra. Tranquilamente regressei a casa a tempo de ir pôr a picanha no forno para o jantar desta malta. Qual não é o meu espanto quando no noticiário da noite vejo que o "braço direito" do principal bandido da Rocinha (conhecido pelo "Coelho" por causa das orelhas de abano que tem ...) tinha sido apanhado, ao final da tarde, em plena Gávea, em frente ao shopping. Ou seja, afinal havia explicação para os helicópteros. O "cara" estava a fugir num carro, com a ajuda de uns tipos da polícia militar e da polícia municipal. Foram todos dentro. Eu não dei por nada, a Patrícia idem, e a maioria das pessoas também não.

Hoje de manhã ao ler o jornal vi que de madrugada apanharam o bandido principal (um tal de Nem) em plena Lagoa Rodrigo de Freitas, em frente ao clube naval, dentro de uma bagageira de um carro.
Ou seja, eles marcaram a invasão da favela para Domingo, mas pelos vistos, desta vez, fizeram o trabalho de casa e prenderam os principais bandidos antes de entrarem. Fiquei tão feliz com esta novidade que decidi que afinal não ia nada ficar em casa fechada (não se esqueçam que a Rocinha e o Vidigal ficam já a seguir ao Leblon ...) e fui para a praia! Coincidência ou não, tomei o meu melhor banho desde que cheguei ao Rio. Numa praia fantástica, super sossegada, cheia de mães com crianças pequeninas a brincar. Ao almoço o João perguntou-me se eu sabia o que era "contraste social". Apeteceu-me dizer-lhe "hoje de manhã a praia". Porque de facto atrás de nós estava a favela do Vidigal, com pessoas que se calhar não sairam das suas casas, nem foram à escola ou ao trabalho, com carros de polícia a fazer os preparativos para lá entrarem; e ao mesmo tempo eu e a Patrícia Solla, com a bébé na maxicozi, debaixo de um chapéu de sol, a conversar, tomar banhos e a bebermos côcô gelado. Para mim este é de facto o contraste social no seu estado mais puro.
Claro que não respondi assim e elaborei a coisa, não fosse o miúdo pensar que eu sou uma burra. Mas a resposta não anda muito diferente do quadro que atrás relatei. Sempre soube e vi estas diferenças sociais abismais, tão características do Rio, de todo o Brasil e de toda a América Latina, e impensáveis nos chamados países do primeiro mundo. É impossível estar no Rio e não ver estas diferenças, pois as favelas estão junto aos outros bairros. Mas começo a perceber que se aprende a viver com elas no dia-a-dia. Custa-me obviamente saber que há tanta gente pobre, mas honesta, ali ao lado. Mas o que posso eu fazer? Posso mudar alguma coisa? Adianta fechar-me em casa e não viver fora de casa, para não ver e saber que existem favelas? Adianta eu não ir à praia, ao cinema, ao calçadão? Acho que, infelizmente, não adianta. E que tenho que continuar a fazer a minha vida, com as cautelas necessárias, sem arriscar e ir para zonas perigosas (por exemplo já não uso relógio desde que cá cheguei). Mas deixando os miúdos irem brincar para casa dos amigos, o Kiko ir aos seus treinos de andebol, futebol americano e sair com os amigos. E rezar para continuar tudo pacato e a viver com o sentimento de plena segurança com que de facto vivo desde que cheguei. Porque muitos de vocês podem não acreditar, mas de facto nunca senti, desde que cá cheguei, qualquer receio ou medo de andar sozinha ou com os miúdos. E eu não sou especialmente afoita, até só um bocadinho mariquinhas.
Vamos lá ver como é que se passa tudo no Domingo, mas acho que vai ser tranquilo e que vamos estar "numa boa".

A questão da segurança é fulcral nos dias que correm para o Rio de Janeiro, futuro palco da Copa do Mundo e das Olimpiadas (que sinceramente custa a acreditar que vão acontecer porque ainda não está nada feito ...). Acho que eles não podem facilitar neste campo, especialmente aqui na zona sul do Rio, com perigo de assustar estas organizações internacionais e tudo ser cancelado. Este primeiro passo de entrar na Rocinha e no Vidigal é fundamental para a pacificação desta zona e de toda a cidade, pois é aqui que se situam os bons hotéis, os restaurantes, o comércio. Vai ter que ser uma batalha ganha. A bem ou a mal. Espero sinceramente que a bem. Afinal o "Nem" e o "Coelho" já estão dentro. Faltam só os outros!

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